Especialistas

dezembro 15, 2010 § 1 comentário

Antigamente, médico era simplesmente médico. Não importava muito sobre que parte do corpo recaía a sua queixa, ele o colocava de pé e mandava respirar fundo enquanto ouvia os seus pulmões; depois o punha deitado e lhe apertava o abdômen; a seguir o ritual prosseguia sentado com um exame na cavidade oral e depois na auricular; finalmente ele examinava a mucosa dos olhos e sua cor. De volta à sua mesa, crivava-o de perguntas sobre sua alimentação, rotinas de trabalho e de descanso. Se tivesse um relacionamento médico-paciente construído há anos, perguntava até sobre o que estava lendo ultimamente. Hoje você passa por uma recepcionista, nem sempre muito simpática, paga a consulta e descobre que ele não é especialista no problema que o aflige. Os dias mudaram.

Mas, isto não é privilégio somente da classe médica. Até os pastores estão se especializando. Uns só evangelizam, enquanto outros só ensinam – criaram até seminários dirigidos por especialistas para se explicar o fenômeno que caracteriza cada especialidade: oração, evangelismo, dons espirituais, vida financeira e por aí vai… Ainda existem os especialistas em cura divina, libertação demoníaca, guerra espiritual, família, e os que se sentem “chamados” só para tratar de distúrbios do comportamento. Eu nem sou tão velho assim e já percebo esta fragmentação do pastorado. Além disso – como pensar é o meu vício – penso, penso, penso e não gosto das conclusões às quais chego. Tento entender a cabeça dessa gente que ganha muito dinheiro com toda esta departamentalização do ministério e não consigo perceber nenhuma evolução em virtude dessa tendência. É meus amigos, a coisa está brava (não repara não, é só um jeito mais culto de dizer como bom carioca: “a coisa tá braba”)!

Há um clamor vindo de diferentes direções da igreja, que me chega aos ouvidos como um grito de “basta, não quero toda esta falsa sofisticação”. Trata-se de gente convertida, que deseja uma comunidade livre destes contornos corporativos – que cá pra nós são muito mal implementados.

Depois de tanto pensar e orar, percebo que o tão sonhado avivamento sobre o qual falamos, atravessará a igreja pelo meio com um estímulo diferente para o ministério: relacionamentos comunitários construídos sobre o sólido fundamento de uma teologia sadia, fruto da exposição de todo conselho de Deus. É fato que este clima corporativo encanta muita gente, mas tenho testemunhado que lentamente as pessoas estão deixando de se impressionar com toda esta vulgar tentativa de alguns pastores de plagiar as megacorporações, criando uma versão tupiniquim de evangelicismo requintado, que os força a isolarem-se atrás de suas escrivaninhas, resguardados por secretárias chatas. Acredite, o modelo é sedutor, mas está com os dias contados.

Aparentemente, quem está do outro lado, imagina que são as pequenas comunidades que definharão. Lamentavelmente, o conceito de globalização ganhou a sua versão religiosa. Assim, imagina-se que tudo que é MEGA crescerá ao custo da falência do “não-tão-grande-nem-tão-pequeno”. Isto pode valer no mundo dos negócios, mas na Igreja, a vida flui por outras artérias e a medida do sucesso está nas mãos do Deus invisível. Quem não se lembra da igreja de Sardes, cuja aparência era de um sucesso mentiroso? (“Conheço as suas obras; você tem FAMA de estar vivo, mas está morto.” – Ap 3:1b NVI). A vara de medir o santuário não obedece um padrão humano e não se encontra nas mãos de homem algum.

Bem, mas meu assunto é a especialização do ministério. Dei toda esta volta só para tentar comunicar que Deus está em busca de homens que aceitem ser enviados com uma mensagem de reconciliação nos lábios. Gente que tenha tempo suficiente para telefonar pessoalmente aos amigos, aconselhar um membro da sua igreja, visitar uma família, abraçar um desconhecido, sentar pra fazer uma refeição sem a intenção de obter algum lucro, amar pessoas, pregar as boas-novas, fazer discípulos, rir, chorar, jogar um ping-pong, bater uma bolinha com a rapaziada. Deus está a procura de gente com cheiro de gente. Se o seu negócio é o empreendedorismo religioso, então é bom tomar cuidado, você pode estar vestindo a camisa errada.

Aos pregadores

dezembro 14, 2010 § Deixe um comentário

Você já teve a sensação de que não há mais nada a ser dito? Já teve a sensação de que Salomão tinha razão ao dizer que “não há nada novo debaixo do céu”? Outro dia entrei na livraria da travessa e depois de percorrer todas as gôndolas, fascinado com o número de títulos, fui acometido de uma convulsão mental: ocorria-me um pensamento após outro sobre a relevância do que dizemos e escrevemos. Encontrei misturados aos campeões de vendas, textos de refinado estilo literário, de relevância incontestável e cujo autor nunca havia ouvido falar. Pensei: o que faz alguém ler algum texto; comprar um livro; ouvir um desconhecido? Seria curiosidade; interesse; identificação com o assunto; sede de informação; ou simplesmente, pura emoção? De repente, me achei questionando se seria um pregador relevante; se o que achava importante ser dito o seria realmente; se havia algo de criativo e inspirado na maneira que usava para dizer o que entendia ser digno que os outros parassem para ouvir.

Toda essa reflexão sobre relevância, criatividade e inspiração, me acompanha desde muito tempo. Quando subo ao púlpito pra pregar, na maioria das vezes já venci a angústia de ter ou não uma mensagem divina; e embora esta seja a luta mor do mensageiro de Deus, não fico livre da angústia se terei condições de exprimir a mente do Espírito de forma compreensível, especialmente tendo semanalmente a incumbência de anunciar o conselho de Deus à uma congregação tão heterogênea! Quanto a sensação de não haver nada novo a ser dito, já me convenci disto. Entretanto, há muita coisa que precisa ser REPETIDA, dita outra vez e depois redita, pregada e pregada de novo, ensinada e ensinada, tantas vezes quantas forem necessárias ao aprendizado comum. Minha oração é para que possa repetir o que já foi dito pelos antigos e meus contemporâneos, com ardente amor e fidelidade absoluta ao Soberano Senhor.

Definitivamente, quero ser um repetidor do Espírito; um repetidor criativo, coerente com a Verdade e com o meu tempo, buscando alcançar os propósitos de Deus na minha geração. Muito provavelmente, a despeito do que tenho a dizer, nunca chegue a ser comparado a um “campeão de vendas”. Mas, nenhum pregador pode abrir mão de apresentar o Evangelho com unção, respeito aos ouvintes e criatividade. Pregar a Palavra é preciso; anuncia-la é uma ordem; depender do Espírito é fundamental; logo, seja um servo fiel e trabalhe arduamente para ser um relevante repetidor dos sagrados oráculos.

Com amor e carinho,

Pr. Weber

Cansaço

novembro 19, 2010 § Deixe um comentário

As pessoas com as quais convivo reclamam muito frequentemente de cansaço. Queixam-se das rotinas às quais estão submetidas no trabalho e na vida em geral. As mais fervorosas reclamações tocam as desumanas pressões por resultados e desempenho; precisam passar o dia tentando provar aos outros de que são capazes e capacitados. Outra reclamação constante diz respeito ao tempo passado fora de casa, alguns têm que sair antes do sol nascer e voltar só depois que já se pôs, muito depois. Os resultados não poderiam ser piores: saúde comprometida, altos níveis de irritabilidade, relacionamentos voláteis, alcoolismo, drogas e outras experiências criativas para fugir desse cansaço crônico, que geralmente inicia no plano físico mas que fatalmente acaba estourando no plano emocional. Isto me tem feito meditar no quanto o mundo jaz no maligno e no quanto a maneira como a vida está configurada é diabólica.

O que chamamos de “progresso” ou de “novas tendências”, certamente não possui a chancela divina. Toda essa engrenagem que faz girar a roda do mundo, tanto no plano das idéias quanto no das pre-suposições filosóficas, são de inspiração duvidosa. O que mais me intriga é porquê cristãos são enredados por essas mentiras opressivas, ao ponto de permitirem que seus conceitos de vida e família sejam influenciados, sem perceberem toda a engrenagem infernal por trás desses mecanismos de opiniões, idéias e pensamentos. Tenho observado com pesar casamentos desmoronarem e lamentado a multidão de crianças (filhos de casais cristãos) tendo que ser arrastadas aos consultórios psiquiátricos com crises de ansiedade e até depressivas, numa altura da vida em que deveriam estar saltando e brincando. A justificativa é sempre a mesma: a necessidade de trabalhar mais, para ganhar mais, consumir mais e “dar uma vida melhor” aos filhos. Mas, os frutos não estão dizendo o contrário?

O fim desse processo é só “canseira e enfado”. Não tenho visto as pessoas gozarem do equilíbrio que esperavam alcançar. Só ouço reclamações e a contabilização de prejuízos, alguns deles irreversíveis (ou deveria dizer irrecuperáveis?). Isto acaba gerando outro cansaço: o de enfrentar esta forte tendência doentia do comportamento de homens e mulheres de todas as idades. Essa gente, em seus momentos críticos de desilusão, recorrem à igreja. Chegam para ouvir, e descobrem que os pregadores teologizaram a ganância e esqueceram de anunciar que a graça de Deus anda na contramão do mundo. O resultado é que existe uma multidão vacinada contra o evagelicalismo e a tudo que possa estar relacionado com a Bíblia, porque já passou por esta ou por aquela igreja, e tudo que conseguiu foi ficar mais cansada e confusa. Este é basicamente o meu público: gente vacinada contra o Evangelho, angustiada, confusa, cheia de conceitos religiosos mal formados, desiludida e sem esperança, gente literalmente exausta. Se você apresenta um desses sintomas, então me deixe dizer que ainda resta uma esperança.

Nossos cansaços interiores são curáveis, mas o tratamento precisa ser feito com rigor. Primeiramente, entenda que Deus não é um amuleto da sorte ou uma palavrinha mágica como “abracadabra” ou “shazan”, a ser usada em ocasiões difíceis e aí estamos liberados para prosseguir a vida com os mesmos vícios conceituais. A questão não é ritualística. Nada tem a ver com o ritual certo, acompanhado das palavras certas. O ideal divino é outro. Deus anseia por poder governar sobre a sua vida, propor novas maneiras de vê-la e interpreta-la. Deus trabalha com transformação gerada a partir da renovação do pensamento. Ele espera poder interferir na maneira de compreendermos os diferentes temas da fé e da existência (casamento, família, paternidade, maternidade, trabalho, dinheiro, produção, amizade, cidadania…). Nosso cansaço, via de regra, ou está relacionado à resistência aos ideais divinos ou com a luta contra esta mesma resistência. Mas, se decidirmos rever esse nosso jeito de ver as coisas, buscando aprender o que Deus tem a dizer, teremos dado um passo importantíssimo para o descanso interior.

O tratamento prossegue com o chamado ao compromisso. Deus nos chama a andar com Ele, a prosseguir aprendendo dEle. Seu interesse não é o de transforma-lo num religioso, num simples e inoperante freqüentador de igreja, mas em um discípulo de Cristo. Nesse processo, Ele o ajudará a incorporar hábitos e a fazer escolhas que tenham como objetivo máximo, glorificar o Seu Santo nome. Nesse caminhar como discípulo, a Palavra de Deus tornar-se-á viva para você. Sua meditação diária e constante o levará à prática “ouvitiva” da voz de Deus. Todos os dias, uma nova proposta, um novo ensinamento, encherá sua mente e coração. Esse círculo virtuoso da fé o levará ao que os antigos chamavam de “santa rotina”. Nesse processo de renovação da mente e cultivo da devoção, o cansaço interior se desfará como um denso nevoeiro à medida que o dia aquece.

Finalmente, ao término de cada dia, lance sobre Deus toda a sua ansiedade. É uma boa maneira de reafirmarmos a nossa fragilidade e o senhorio absoluto de Cristo.

Orando por você,

Pr. Weber

PACIÊNCIA

novembro 3, 2010 § 1 comentário

Paciência é uma virtude que se contrapõe a ansiedade. Como todas as virtudes, não é algo que nasce conosco. Também não é uma característica genotípica, herdada pela força da carga genética recebida. Na verdade, usando um neologismo que eu gosto muito, todas as virtudes são “cristotípicas”, uma espécie da manifestação da presença de Deus em nós, da habitação do Espírito da Vida no coração dos eleitos, dos que foram sensíveis ao poder do Evangelho.

Em linhas gerais, paciência é a arte de saber esperar em Deus; de silenciar diante do Seu silêncio e de permanecer em silêncio enquanto Ele busca falar conosco. A própria espera pode ser um discurso divino: uma maneira de comunicar o imensurável valor de Si mesmo e da Sua presença; um jeito próprio de nos fazer valorizar o que não conseguimos enxergar; quem sabe, uma tentativa de mover o nosso foco; ou ainda, de nos levar a peregrinar um pouco pelos territórios árduos do quebrantamento. Enfim, paciência é algo que se aprende, e se aprende na arena das expectativas.

Quando muito jovem, eu pensava em mudar o mundo. Nesse período da vida, minhas expectativas eram uma mistura de auto-afirmação e gigantismo barato. Hoje, depois de sentar para aprender com o Pai e ouvir muitos “nãos”, entendo que o tempo de espera funcionou como uma oportunidade para que aprendesse a olhar em outras direções; reparar na beleza do inapreciável; valorizar o que não se pode pôr preço e saborear da alegria de ser comum. Aprendi que quanto mais rápido se perde o ímpeto de querer emoldurar a si mesmo, mais rápido se aprende a ser paciente. Mas, eu não espero que numa era em que se sofre tanto, e de modo crônico, de ansiedades variadas, alguém se importe em ser paciente. Porém, a se crer de fato que o Evangelho é uma força libertadora e que o grande alvo do Espírito é fazer-nos crescer à plena estatura de Cristo, ser paciente não é uma alternativa, mas uma oportunidade para crescer.

Outro ponto que ficou muito claro pra mim foi: para que Cristo seja formado em nós, muitas das nossas próprias orações não poderão ser respondidas. Porque, mesmo que não demos conta disso, muitas delas subvertem as virtudes. Como para Deus o que verdadeiramente importa é a nossa formação, Ele não está nem aí para as nossas evoluções amimalhadas ou pirraças espirituais, muito usuais por quem está dominado por ansiedades.

Bem, se o seu interesse é negar a si mesmo, tomar a cruz e seguir a Cristo, então bem-vindo à santa escola das virtudes. É nisso que o Espírito Santo está ocupado todo tempo. Nela, a lição da paciência, é aprendida sob intensa dor.

Com amor e carinho

Pr. Weber

IRRELEVÂNCIA

outubro 25, 2010 § 4 Comentários

Dizem que a tarefa jornalística é noticiar o que acontece no país e no mundo. Entretanto, o compromisso com a ética e a imparcialidade de qualquer que seja o órgão divulgador da notícia, não a torna relevante. Por vezes estou lendo o jornal ou assistindo a um telejornal e me encontro a questionar: Pra que serve isto? Nestas ocasiões, tenho a sensação de estarmos todos metidos num vácuo onde o que predomina é a futilidade e a irrelevância, gerando um estado tal de entorpecimento mental no qual a inteligência parece ter sido inibida.

Infelizmente, este não é um fenômeno que atinge apenas os grandes veículos de comunicação. O mundo e seus cidadãos, de repente fizeram opção pelo vazio. Pensar tornou-se uma raridade. Os discursos ficaram intragáveis; os diálogos, às vezes, intoleráveis; e até mesmo aqueles que potencialmente poderiam equilibrar o prato da balança, também são capturados e seduzidos por esta tendência. É triste, mas é verdade!

Nada escapa desta preferência pela irrelevância. As artes, a política e a religião, fizeram um pacto para privilegiar a tolice. A maior parte dos recordes parece ter alguma relação com o irrelevante: o campeão de votos, a música mais pedida, o livro mais vendido, a música mais tocada… De vez em quando sou surpreendido por uma dessas figuras famosas, totalmente configuradas à sua própria tribo: calças caídas ao meio do glúteo, andar desconjuntado, discurso em código próprio (como se fosse um dialeto), e o pior de tudo é que isto parece ser uma receita de sucesso. Meu Deus, este é um mundo dominado pela imbecilidade e eu estou me movendo nele!

A prática não é diferente no meio religioso, em especial entre os evangélicos. Na verdade, os estereótipos aqui seguem as mesmos tendências de lá no que tange ao figurino, dialeto próprio e muita, muita irrelevância. Pregações vazias; comportamentos insanos; músicas com ênfases espíritas; superstições… Mesmo para o mais desatento, é notório o domínio deste gênero de comportamento. Como pastor, tento avisar aos jovens da igreja para que não se deixem capturar por esta burrice crônica que está no ar; tento avisar aos pais sobre a necessidade de serem leitores mais fervorosos, especialmente da Bíblia; tento despertar a congregação sobre a importância do resgate bíblico e histórico da nossa fé; esforço-me ao máximo para trazê-los ao que é puro, honesto, de boa fama, porém a irrelevância parece exercer fascínio maior. Todavia, não devemos nos cansar de promover a reflexão; de insistir na produção do que seja relevante; de privilegiar, seja nas urnas ou na simples compra de um livro, a relevância. Só assim teremos país relevante, igreja relevante e vidas que realmente fazem a diferença.

Com amor e carinho,

Pr. Weber

Acerte o passo

outubro 8, 2010 § 2 Comentários

AQUELE QUE DIZ QUE PERMANECE NELE, ESSE DEVE TAMBÉM ANDAR ASSIM COMO ELE ANDOU (IJoão 2:6)

Esta geração de evangélicos formais (é que também existem os informais, os desigrejados e os não praticantes – meu Deus, mais essa agora!) têm sido vista e usada apenas como um bom mercado consumidor e uma massa eleitoral bem atraente. Para esse mercado vende-se de tudo: Cd’s (a maioria de péssima qualidade), camisetas, chaveiros, caixinhas com versículos bíblicos, enfeites, bijouterias com o nome Jesus, adesivos com frases de efeito… Bem, questões comerciais envolvendo religião e intenções à parte, por vezes tenho a sensação de que a qualquer instante as mesas serão reviradas e as gaiolas abertas, numa nova demonstração divina de purificação do espaço sagrado.

Por conta disso, já flutuei emocionalmente entre a total indignação e a quase incurável angústia. Lamentei com amigos, orei com outros, preguei sobre todo este desdobramento doentio, e cheguei até a imaginar o que aconteceria se alguns reformadores ressuscitassem para ver tudo isto. Imagine John Owen, o célebre pregador inglês que pregava poderosamente contra o pecado e ensinava a mortificar os feitos malignos da nossa natureza, assistindo a um desses programas evangélicos ou presente num desses cultomícios organizados por lideranças evangélicas! Imagine Calvino ouvindo a teologia da prosperidade e constatando que a fome atinge mais de 11 milhões de famílias brasileiras, enquanto toda uma geração de cristãos evangélicos se refestelam em comilanças sem fim e consumo desenfreado! Acho que eles não tolerariam o que muitos cristãos piedosos têm sido capazes de suportar. Certamente fariam uma pergunta: Quem nessa geração está condenando esse pecado? E nos ouviria dizer: Ninguém.

O fenômeno da onda evangélica e eventual adesão religiosa da sociedade, da incorporação de um vocabulário próprio, quase um dialeto, o “evangelicalês”; a exploração comercial e política dessa onda, e todas as demais bizarrices produzidas pela falta de ensino de boa qualidade, nos coloca diante de um fato preocupante: o livro de Deus está perdido e precisa ser encontrado.

Esta geração perdeu o contato com a Palavra de Deus. A tendência e predileção por uma fé sensitiva, despertou na maioria uma aversão subversiva ao que está escrito. A Bíblia se tornou apenas num artefato bastante útil para fundamentar as loucuras espiritualistas de alguns, transmitindo a falsa ideia de que ela seja uma fonte de consulta para magos e feiticeiros engravatados. Na verdade, ela é o pronunciamento do único e verdadeiro Deus ao longo da história, com o propósito de nos “mover do indicativo (quem somos) ao imperativo (o que devemos ser)” como bem disse R. Paul Stevens e Michael Green.

Para alcançar este objetivo, a Bíblia aponta o supremo modelo: Cristo. O texto de João diz que o grande compromisso de quem abraçou a mensagem do Evangelho é o de “andar assim como Ele (Cristo) andou”. Usando Cristo como modelo, observamos quais são os reais fundamentos da prática missional e da devocão (oração, adoração, jejum, silêncio, meditação e etc.). Mas, como sugeriu Dallas Willard, “que Jesus guia os alunos para um curso de mestrado da vida”, olhar para Cristo é de fato encontrar a grande razão da nossa própria humanidade.

Andar como Ele andou também implica em falar como Ele falou; amar como Ele amou; orar como Ele orou; viver como Ele viveu; e ensinar o que Ele ensinou. Sem esse compromisso, não penso que estejamos a abraçar o Cristianismo nem tampouco a pregar o Evangelho.

Com amor e carinho,

Pr. Weber

CERTO OU ERRADO?

outubro 5, 2010 § 2 Comentários

“DUAS COISAS ENCHEM A MENTE DE ASSOMBRO E REVERÊNCIA…: O CÉU ESTRELADO SOBRE MIM E A LEI MORAL DENTRO DE MIM.” Immanuel Kant

Acabo de colocar os pés (ou seriam os dedos, uma vez que estou digitando?) num território inóspito e altamente escorregadio. Falar de moralidade (não moralismo) foi, é e será sempre desafiante. Kant entendia que a “lei moral” deveria ser reverenciada, que essa intrincada realidade que envolve sentimentos e conteúdos de outra natureza, e impede os seres humanos de mergulharem mais fundo no lamaçal da própria falência, deveria ser admirada. Entretanto, acredito que a nossa falta de estímulo para meditar sobre o tema, fundamenta-se na aversão que temos de fazer uma avaliação cuidadosa do que aceitamos e rotulamos como “normal”. O que é certo ou errado para você?

Me parece que numa época como a nossa, em que predomina o pluralismo e relativismo, fica difícil emitir opinião sobre os mais diferentes temas que ocupam o centro dos debates humanos desde sempre. Assuntos como aborto, homossexualismo, divórcio, sexo pré-marital, uso de álcool e substâncias tóxicas, danças sociais e outros temas de teor polêmico, estão ficando de fora das agendas pastorais, por pressão da cultura ou da pensada atitude de fugir da polêmica. Enquanto isso, além de ser raro encontrar alguém que se encante, como Kant, com a lei moral, parece que de repente cada um resolveu construir os seus próprios valores e nos colocar no meio de uma grande anarquia conceitual, onde cada um age como acredita e ponto final. Acrescente a isso a incurável arrogância humana e o orgulho de imaginar que todos pensam com independência e imparcialidade, e teremos a receita do caos.

Tenho observado com espanto e preocupação a formação moral dos mais jovens, suas ideias, e principalmente as concessões e a inércia dos mais velhos. Literalmente, todos estão fugindo do debate moral. Parece até que é coisa do outro mundo, sentar, falar, ouvir e argumentar. O resultado dessa atitude refratária não é um inofensivo silêncio, na verdade é um terrível silêncio. Pastores, professores, psicólogos e sociólogos, estão preferindo rotular o que está acontecendo de “nova moralidade”. Com isso, escolas e até igrejas estão perdendo o status de “lugar seguro”. É lamentável, pois onde o ser humano deveria vir para tornar-se mais ajustado, melhor informado e melhor qualificado para a vida natural (a escola) e para a vida espiritual (a igreja), tonou-se um ambiente propagador de comportamentos forjados nos altos fornos da pecaminosidade humana.

Ética tornou-se um assunto puramente teórico e acadêmico. Estuda-se ética nos seminários e nas universidades: os médicos estudam sobre a ética médica e a bioética; os administradores e economistas, sobre ética financeira e a ética dos negócios; os clérigos, sobre a ética das relações, das intenções e das abordagens. Mas, infelizmente, na vida real, ética é matéria esquecida. A razão disso é porque ética faz parte de uma estrutura sustentada pela lei moral. Assim, se não há uma boa construção da lei moral, não haverá compromisso ético. E de onde vem esta tal “lei moral”?

Os cristãos (aqueles que se submeteram ao propósito de serem semelhantes a Cristo mediante aprendizagem) são encorajados a construírem seus valores e posicionamentos morais a partir do ensino do Evangelho. O pensamento humano e as produções intelectuais oferecidas em cada geração, devem ser fontes de estudo e pesquisa, mas não fontes inspiradoras para a construção de comportamentos, sob o risco de qualquer um (inclusive o pastor) perder a condição de discípulo (aprendiz) de Cristo.

Esta tal “lei moral” é que influencia o cristão na relação consigo mesmo, interferindo na sua linguagem, exposição pública e trato pessoal. A segunda grande influência é na relação com a família, depois com o próximo, com as instituições, com as autoridades… Desta forma, ele passa a ser “o sal da terra”, o diferencial num mundo uniformizado pelo pior e não pelo melhor. Assim, encorajo a todos os cristãos que lerem este curto artigo, a submeterem-se à moral do Evangelho e construir sua visão de certo ou errado, a partir do ensino de Cristo e não de outras fontes, sob o risco de chegar a descobrir um dia que Cristo jamais os conheceu.

Respeitosamente,

Pr. Weber